Não erre rápido – Por que o pensamento fail fast é uma armadilha?

Fail fast (erre rápido) tem se tornado um conselho comum para novos empreendedores. Embora a expressão não seja nova 1, ela tem sido associada às startups, induzindo agilidade.

Se a expressão é absorvida ao pé da letra, cria-se uma atmosfera onde tudo é passível de ser testado e corrigido, como se não houvesse consequências para o erro.

Todavia, a lógica por trás do fail fast nem de longe é uma apologia ao não planejamento. Pelo contrário. É através do planejamento e de uma gestão comprometida que se identificam os futuros pontos de falha. É através do teste de hipóteses que se identifica um caminho inviável (ou falho, seguindo esta nomenclatura).

Rob Shelton2, Global Innovation Chief na PwC, coloca de forma muito interessante que o que move as empresas inovadoras são processos formais de inovação e a habilidade para rapidamente tentar e experimentar novas ideias e descartar as que não funcionam.

Mas ‘não funcionamento’, ainda segundo Rob Shelton, não deve ser chamado de erro. A questão é ter uma hipótese e testá-la. Se os resultados não validam a hipótese, temos dados. Se os resultados validam a hipótese, temos uma descoberta.

Wrong wayO termo erro possui uma carga negativa, além de não dar o caráter científico do teste de hipóteses. As pessoas não se motivam por errar, mas podem se motivar por identificar mais dados e por fazer descobertas.

A propósito, podemos observar que, em geral, não gostamos de errar. E segundo Glauco Cavalcanti3, que faz um paralelo muito interessante entre a vida de um empreendedor e a de um atleta de alto desempenho, o que dá o título ao campeão são os não-erros cometidos.

A abordagem do não-erro é interessante por definir mais claramente o que é um erro e o que é uma alternativa, um plano B. Além disto, coloca o empreendedor como protagonista da própria história: ele é o único responsável pela obtenção da nota 10, e somente seus próprios erros podem lhe tirar pontos.

A abordagem do não-erro, embora negativa na escrita, é positiva no sentimento. Gera senso de responsabilidade e de capacidade de realização.

Então, não erre rápido. Valide hipóteses. Rejeite hipóteses. Planeje. Siga adiante ou opte pelo caminho alternativo. Descobrir um jeito que não funciona não é um erro. E, independente do caminho escolhido, execute com a precisão de um campeão.

Vinicius Soares

 


 

1 – O termo fail-fast já aparece na literatura em 1985, por Jim Gray, em seu artigo “WHY DO COMPUTERS STOP AND WHAT CAN BE DONE ABOUT IT?”, se referenciando a softwares capazes de rapidamente detectar falhas e interromper seu funcionamento.

 

2 – Interessante a leitura do texto de Max Nisen na Business Insider, citando Rob Shelton.

 

3 – Glauco Cavalcanti é recordista em vôos de asa delta em longa distância e é professor de negociação da FGV. Em seu livro “Empreendedorismo – Decolando para o futuro”, cita a tática do não-erro como a forma de obter grandes resultados. Uma breve visão sobre o conceito pode ser lida nesta entrevista concedida ao professor Cláudio da Rocha Miranda.

Comentários

  1. Grande Vinicius. Gostei muito do seu blog. Voce devia atualiza-lo com mais frequencia. Abs.