Inovações acontecem em redes

Por Don Peppers.

O economista Leonard Read certa vez utilizou um lápis comum para fazer uma argumentação fundamental sobre a natureza da tecnologia e da inovação. Por mais simples que um lápis seja, ele afirmou que “nenhuma pessoa na face da Terra” sabe como fazê-lo  desde o princípio.

Você precisaria começar extraindo madeira para o lápis com serras, machados, cordas e outras ferramentas, o que significa que você também precisaria extrair e fundir o minério para produzir estas ferramentas, produzir a comida para alimentar os lenhadores e construir uma hidrelétrica para alimentar a serraria. Você precisaria extrair o grafite no Sri Lanka, misturá-lo com hidróxido de amônio e sulfonated tallow, depois cozê-lo a 1.093 graus Celsius antes de tratar a mistura com cera de candelilla, parafina e gorduras hidrogenadas naturais.

O argumento de Read não é simplesmente que nenhuma pessoa sozinha poderia fazer todas estas coisas, mas que uma pessoa sozinha sequer sabe como fazer todas estas coisas. Absolutamente ninguém. (Rápido: Você por acaso sabe o que é cera de candelilla ou solfonated tallow?)

Mas apesar do fato de ninguém saber como se fazer um lápis, os lápis ainda chegam nas lojas, mais ou menos da mesma forma que as colmeias aparecem nos campos: os lápis emergem de ações coletivas de pessoas diferentes fazendo coisas diferentes. De fato, todos os produtos da tecnologia humana, dos lápis e doces aos aviões e iPads, foram inventados combinando tecnologias previamente desenvolvidas. E hoje, da mesma forma que nenhuma abelha isoladamente sabe como fazer uma colmeia, nenhum indivíduo humano sabe como fazer um lápis.

Toda inovação é realmente apenas o resultado da combinação de duas ou mais inovações anteriores. Como Matt Ridley, o comentarista inglês, ludicamente descreveu, as ideias se unem e “fazem sexo”, dando a luz a ainda mais ideias.

Então, cada nova inovação é, de fato, apenas um nó adicional em uma rede de inovação cada vez mais complexa. Ou eu poderia dizer “rede de redes (de inovação)”.

Analisar a inovação sob esta perspectiva de rede tem diversas implicações. Por um lado, a velocidade com que novas inovações aparecem irá inevitavelmente acelerar por causa de:

  1. Aumento do “estoque” de inovações prévias que podem agora ser combinadas;
  2. Aumento na quantidade de mentes criativas que podem ser alocadas;
  3. Maior velocidade e eficiência da interação entre as pessoas e
  4. As pessoas compartilham um maior nível de confiança (por exemplo, quanto mais eficientemente as pessoas interagem umas com as outras)

A taxa de aplicações de patentes nos Estados Unidos de fato cresceu mais de 600% em menos de cinco décadas. E como um competidor no mundo dos negócios, de tempos em tempos você provavelmente experimenta esta chocante aceleração na taxa de mudança como um tipo de competidor cada vez mais rápido e intenso. Como consequência, o ritmo da competição parece estar acelerando.

Uma segunda consequência, como Alistair Davidson sugere em seu livro “Innovation Zeitgeist”, é que as inovações por si próprias estão cada vez mais conectadas umas às outras, já que as diferentes tecnologias estão se misturando. “Para pegar um simples e conhecido exemplo,” ele sugere, “um player de música sem uma loja de MP3 tem menos valor do que uma cadeia de valor que consiste de hardware, software, e-commerce… e conteúdo.” Cada um dos elementos nesta cadeia representa um isolado, mas muito proximamente relacionado, potencial para inovação.

Em terceiro lugar, em função da estrutura em rede da inovação, pode ser extremamente produtivo explorar os “laços fracos” que uma ideia inovativa tem com as outras. Em um post anterior, eu escrevi sobre por que os laços fracos nas redes sociais irão frequentemente gerar melhores oportunidades, se você estiver procurando por um novo emprego ou tentando conquistar um novo cliente. Este argumento de “laços fracos” é igualmente aplicável diretamente para a inovação e o progresso. As inovações mais disruptivas – por exemplo, aquelas inovações que tendem a criar mais valor – quase sempre resultam da combinação das mais distantes formas de tecnologia, modelos de negócio e ideias.

Pensar fora da caixa significa simplesmente explorar os laços fracos de uma ideia.

Vale a pena ponderar sobre um pensamento adicional a respeito desta crescente rede de novas tecnologias. Atualmente, em alguns assuntos, o ritmo da inovação é tão rápido que é mais custoso e difícil gerar algum lucro substancial de uma ideia patenteada antes que ela se torne obsoleta. Então, em um número crescente de situações, faz mais sentido simplificar e deixar qualquer um usar sua nova ideia brilhante, mesmo que sejam seus competidores, porque o ritmo da mudança é tão rápido que mais valor pode ser criado para o seu próprio negócio se outros puderem combinar a sua ideia com as deles. A abordagem open-source do Android está atualmente gerando inovação mais rápida do que o “jardim cercado” do iOS, de forma que a Apple está começando a se abrir também.

Mas este impulso em direção a uma maior abertura se estende além de questões de plataformas como Google ou Apple. Em 2011, por exemplo, o Facebook voluntariamente revelou os até então detalhes proprietários por trás da sua altamente eficiente instalação de servidores em Prineville, Oregon, mesmo que o uso eficiente de energia e tecnologia tenha se tornado um problema importante para todas as empresas de tecnologia, incluindo os concorrentes diretos do próprio Facebook. De acordo com o CEO Mark Zuckerberg, “compartilhando isto, nós faremos o ecossistema mais eficiente para crescer”. O Facebook é, claramente, um dos beneficiários primários deste ecossistema.

Há um mundo de inovação em rede lá fora. E, como Martha Rogers e eu documentamos amplamente em nosso próprio livro  “Extreme Trust”, em um mundo com mais redes, é inevitável que as pessoas demandem mais confiança das companhias e das outras pessoas com quem elas interagem.

Don Peppers

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